Sexta-feira, dia 12 de novembro de 2010.
A escritora Telma Scherer faz uma intervenção artística, usando o espaço da Feira do Livro de Porto Alegre , para falar sobre sua condição de escritora e contar detalhes, alguns difíceis e nada confortáveis, de quem decide viver da produção artística. Sua apresentação consistia em elementos singelos: conversando diretamente com o público, ela falava das dificuldades de se manter financeiramente, sobre os meses de aluguel atrasado que a obrigaram a sair de seu apartamento. Usou bolhinhas de sabão e levou faturas de contas antigas para realizar sua performance. Os passantes paravam para assisti-la.
Sua intervenção vinha concentrando cada vez mais pessoas à sua volta, curiosas para ouvir a sua história. Ela foi interrompida por nada menos que dez brigadianos, que não só intentavam dispersar a multidão de forma truculenta como obrigaram a artista a se retirar contra a sua vontade, de forma agressiva e desproporcional. O argumento que a organização do evento usou, posteriormente, foi de que a artista estava “obstruindo o espaço destinado à Feira, concentrando muitas pessoas em um só lugar e provocando desordem”. Devemos salientar, ao ouvir um argumento tão vazio de justificativa, que o espaço utilizado pela própria Câmara do Livro para realizar a Feira é público e é direito de todos usarem seu espaço de forma pacífica. Era o que Telma Scherer fazia: utilizava o espaço da Praça da Alfândega de forma pacífica em nome da arte, num espaço destinado a ela.
O que a Brigada Militar fez, acionada não se sabe exatamente por quem, foi uma demonstração de força bruta e desrespeito por direitos civis primários como o direito à livre expressão. Existem vídeos no YouTube que registram e comprovam a desproporcionalidade da ação dos brigadianos não só em relação à Telma Scherer, mas em relação ao trato com as pessoas que estavam à volta, simplesmente assistindo a intervenção, e que não se conformaram com a violência desnecessária da ação policial, registrando em imagens este momento constrangedor.
O que não se consegue compreender, ao ter consciência da intenção da artista, é saber o que era tão incomodo na sua intervenção: se era a sua sinceridade ao revelar as dificuldades de um artista que luta para manter sua profissão alijado do apadrinhamento das grandes firmas editoriais, que justamente controlam, financiam e se retroalimentam do faturamento levantado pela Feira do Livro, ou a ousadia dela em simplesmente aproveitar um espaço que é público sem pedir permissão a essas mesmas grandes empresas que, obviamente, não se preocupam com a produção artística, mas apenas com o lucro, tal qual o dono de um frigorífico.
A mensagem que Telma Scherer nos deixa, talvez mesmo sem querer, é que a arte, e o “lado B” da arte, incomodam as autoridades e desafiam as grandes empresas ao expor as desigualdades de tratamento destinadas a uns e outros artistas. Alguns poucos são eleitos, outros, quem sabe a maioria, são relegados à completa falta de incentivo e investimento por parte das grandes empresas editoriais e dos órgãos de incentivo à cultura.
Aqueles que vivem da produção artística e cultural, ou mesmo os apreciadores e apoiadores, os verdadeiros apoiadores, não se resignarão diante deste episódio, mais um episódio vergonhoso da história de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul, lugares dominados pelo sentimento segregacionista e isolacionismo cultural e pela truculência daqueles que defendem e representam as forças do poder central.
Muito bem pontuado, Jéssica. Basta ver o que é promovido em termos de "literatura" na feira do livro.
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