Volto desse hiato de dois meses, infelizmente, para comentar outro episódio vergonhoso da história de Porto Alegre. Três meses depois de a Brigada Militar ter arbitrariamente expulsado a poetisa Telma Scherer da Feira do Livro de Porto Alegre, enquanto fazia uma intervenção artística, na noite de ontem foi a vez do grupo Massa Crítica, que promove passeios coletivos de bicicleta pela cidade para incentivar a conscientização e redução do uso de carros, ser surpreendido, ironicamente, por um carro que atropelou nada menos que vinte ciclistas após ter acelerado deliberadamente e, para aumentar ainda mais a perplexidade do fato, fugiu em alta velocidade, sem prestar socorro aos atingidos. Pedestres que assistiram à ação deram depoimentos a quem se prontificou a registrar o fato, e demonstraram estar em estado de choque.
O grupo Massa Crítica promove uma causa sensata em favor do meio ambiente e de um trânsito sustentável (já que, em Porto Alegre, não há espaço suficiente para que circule praticamente um carro por pessoa, caso não tenham percebido) de uma maneira pacífica e legítima. Encontram-se na última sexta-feira de cada mês, no largo Zumbi dos Palmares, para reunir seu pessoal e dar início ao "bicicletaço". Dessa vez foram surpreendidos por uma ação criminosa que vem sendo chamada pela imprensa de "acidente". Todos os jornais,Zero Hora, Correio do Povo, e portais de notícia, como o Terra, estão noticiando o fato, que possui todas as características necessárias para se configurar crime, como um mero acidente.
Todos podemos perceber que qualquer tentativa de protesto ou manifestação, de qualquer natureza, é amplamente desencorajada pela imprensa, que se ocupa apenas em mostrar os "tumultos" e o saldo de feridos em confrontos com a polícia, e normalmente dispensa pouca atenção às causas motivam as manifestações. Não é raro que, pessoas que não estejam a par da organização de grupos que promovem causas relevantes, ou mesmo a par da totalidade dos fatos, se deixe influenciar pelos fragmentos de notícia que a imprensa, não só a gaúcha como a brasileira em geral, apresenta. Sendo assim, também não é raro que essas pessoas menos bem informadas se oponham à ação dos manifestantes, considerando-a bagunça, desordem, tumulto.
Lembram o que a Brigada Militar declarou ao expulsar Telma Scherer da Feira do Livro? Não exatamente com estas palavras, mas ela estaria provocando "tumulto" na circulação do evento. O mesmo provavelmente vai acontecer com o Massa Crítica à medida que os menos bem informados começarem a formar uma opinião a partir de informações fragmentadas e parciais fornecidas pela imprensa.
Mas afinal de contas, por que razão a imprensa daria legitimidade a um movimento que defende a redução do uso de carros se os seus maiores anunciantes são, justamente, as grandes empresas automobilísticas? Abram a Zero Hora, por exemplo: é absolutamente habitual dar de cara com anúncios de quase ou até de meia página, anunciando as promoções de Carnaval das montadoras e suas revendas. Só porque o Massa Crítica é um movimento pacífico, não significa que não seja incômodo.
Fontes:
http://massacriticapoa.wordpress.com/
http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=262207