domingo, 5 de dezembro de 2010

A "Guerra do Rio" e o tiro certeiro do WikiLeaks

Nas últimas duas semanas, o Brasil e o mundo acompanharam a ocupação ostensiva do Complexo do Alemão por parte das Forças Armadas, do BOPE e da Polícia Federal, unidas sob o propósito de desmantelar as redes de influência do tráfico de drogas das favelas do Rio de Janeiro, que, não de hoje, mas há décadas, vem dominando a cidade com a sua articulação de poder paralelo. Mas a sorte da população do Rio de Janeiro resolveu virar neste ano de 2010...

O cenário que se armou na cidade do Rio de Janeiro foi o de uma legítima guerra civil: os traficantes – e supostos traficantes – montavam barricadas para impedir a subida das forças de combate, atiraram e explodiram carros da Aeronáutica, queimaram ônibus e carros vazios. Todos esses eventos foram um prato cheio para que a grande imprensa, como O Globo, fizesse uma óbvia comparação com ações terroristas de proporções semelhantes às de grupos como Al Qaeda. A impressão que as ações destes indivíduos passaram pelo menos para mim é de que a sua ação não foi apenas uma reação desordenada, pelo contrário: estes indivíduos sabem muito bem em quem atirar. Existia uma consciência por trás destas ações de tal forma que estes “bandidos” não atacaram pessoas comuns ou fizeram-nas de refém, como o rapaz que em 2000 sequestrou o famigerado ônibus 174 e assassinou uma professora. Não. Os “traficantes” acertaram muito bem seu alvo ao atirar em carros da Polícia e das Forças Armadas, porque afinal de contas eram eles que estavam na linha de frente, e não o cidadão comum. Não explodiram escolas nem hospitais. Portanto, questiono a definição de terrorismo. Mas até aceito a concepção de guerra.

Outra coisa a se observar foi a generalização promovida pela imprensa ao chamar “traficantes” tanto aqueles que estavam armados quando aqueles que estavam fugindo de uma favela a outra, sem ter a menor certeza – ou mesmo sem a menor intenção de tê-la – se tratavam mesmo de bandidos fugitivos ou moradores da favela desesperados em salvar a própria vida diante do perigo iminente de ser baleados ou confundidos com os bandidos. Imagens de helicóptero divulgadas, ao vivo, pela TV Globo mostravam justamente a cena de rapazes correndo supostamente para outra favela, desarmados, apenas com a roupa do corpo e alguns até descalços. Para parte dos envolvidos, ainda que indiretamente, esta guerra ao tráfico soou desproporcional. A campanha promovida pelos meios de comunicação serviu para convencer a própria população das comunidades de que tudo aquilo que estava acontecendo era bom especialmente para ela. Talvez no início de tudo não parecesse. A mídia teve um poder providencial de convencimento nesse sentido. Tudo indica que quem mais matou e menos morreu em toda a ação foi a Polícia & Forças Armadas. Mas é justamente assim que as coisas parecem ficar em paz no Brasil – pelo menos para as autoridades. Gostaria que daqui seis meses a opinião da população fosse ouvida, já que ninguém se preocupou em saber se a população das comunidades apoiava a ação das autoridades (ou sequer sabia de que tudo se tratava) até a mídia entrar com a versão oficial dos fatos.

A pergunta que fica no ar, depois de todo este conflito, depois de se ter a favela providencialmente resguardada pelas mãos do Exército – fato absolutamente corriqueiro na história deste país, já que em situações de “risco”, ironicamente, são os generais que tomam conta da democracia – vamos assistir ao espetáculo do progresso rumo à Copa do Mundo de 2014 e à Olimpíada de 2016, quando os gringos vão baixar em terras brasileiras e conferir o serviço. A solução é limpar o Brasil. A “operação faxina”, de limpeza social e étnica, já começou. “O futuro já começou”.

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Julian Assange é um exemplo do que se pode chamar de “guerrilheiro da informação”. O australiano de 38 anos, radicado na Suécia, extrai o sumo das possibilidades de propagação da notícia e da informação que a Internet proporciona para furar o bloqueio da mídia corporativa. Aproveita-se que a Internet é, a princípio, uma mídia democrática e sem fronteiras para trazer à tona questões e fatos espinhosos para a grande mídia e desconfortáveis para a política de países como os EUA e aliados. Foi o que Julian Assange fez nesta semana, no seu site WikiLeaks, ao divulgar 250.000 telegramas da diplomacia americana, o que causou desconforto diplomático para os EUA e outros países envolvidos. O conteúdo destes telegramas era confidencial e expunha a opinião de diplomatas e membros do governo estadunidense sobre líderes de várias nações e a sua verdadeira posição em relação às políticas alheias (inclusive tendo o Brasil na sua pauta). Depois de serem divulgados primeiramente pelo WikiLeaks é que estes documentos foram repassados para cinco grandes publicações de países diferentes, como o New York Times, The Guardian, Der Spiegel, Le Monde e El País. A mídia corporativa, os grandes órgãos e as suas odiosas manifestações de apoio às políticas norte-americanas, sendo eles de países aliados, já não tem mais o monopólio da informação e não mais impedem que a população tenha a acesso a informações relevantes por intermédio de outras mídias.

O contra-ataque, previsivelmente, veio muito rápido. Os documentos foram divulgados no domingo. Na segunda-feira, o site WikiLeaks estava com acesso bloqueado nos EUA e na Europa. No meio da semana, Julian Assange passou a ser acusado de “abuso sexual” pela polícia sueca e perseguido pela Interpol. O seu advogado, Mark Stephens, afirma que se trata de perseguição política. Nós não temos a menor dúvida quanto a isso. Julian Assange se atreveu a afrontar o Império estadunidense ao divulgar a verdade sobre a sua política mesquinha e prepotente, e agora está sofrendo as conseqüências deste enfrentamento. Toda a sequencia de fatos, até agora, vem se seguindo de forma absolutamente óbvia: o guerrilheiro se insurge, dá o primeiro golpe, e depois toda a sequencia de golpes do contra-ataque se dá de forma absolutamente desproporcional e arbitrária. Nada pode contrariar a versão oficial dos fatos, nada pode confrontar a política dos EUA e nem a dos seus aliados sob o risco de ser impiedosamente riscado do mapa. Hoje (05/12) a imprensa divulgou que o governou australiano, caso consiga capturar Assange, vai entregá-lo à justiça dos EUA. Caso isso aconteça, não se pode mais ter certeza do que acontecerá a ele. Porém, o WikiLeaks e outros órgãos que promovem uma postura de resistência não encerrarão suas atividades e o governo dos EUA ainda terá muito com o que se preocupar. A Internet é apenas uma das frentes das “invasões bárbaras” do nosso tempo.


domingo, 21 de novembro de 2010

Sakineh - Direito à vida vs. o respeito à cultura

O caso da iraniana Sakineh Ashtiani é um caso de dupla via ideológica. Na verdade, mais um. Ela é apenas mais um exemplo explícito e mundialmente conhecido da brutal arbitrariedade do governo iraniano, que desde 1979 está às amarras do fundamentalismo religioso.

Tempos atrás, houve uma discussão calorosa no mundo todo motivada pela medida, tomada pelo governo da França, que proíbe que as mulheres muçulmanas usem o xador (lenço que cobre a cabeça e envolve o rosto) ou a burca (roupa que esconde quase todo o corpo) em locais públicos. A medida foi considerada polêmica: preconceituosa e excludente por uns, afirmativa dos direitos da mulher por outros. O governo da França, berço do Iluminismo e do mote de “liberdade, igualdade e fraternidade”, interditou, afinal de contas um símbolo de identificação cultural e religiosa da mulher muçulmana ou o símbolo da sua opressão? Ou as duas coisas?

Confesso que meu objetivo é abrir uma discussão para que, aos poucos, se possa solucionar um paradoxo do qual eu mesma, às vezes, não consigo desviar.

A defesa da “cultura” não deveria jamais deve se antepor ao direito à vida. O argumento de defesa da cultura, embasado na prática de rituais arbitrariamente estabelecidos, é o tipo de argumento que dá respaldo às touradas, à caça às baleias, ao assassinato de mulheres, crianças e grupos minoritários. A “cultura” que se defende diz respeito apenas à cultura dominante, e dominadora, que impõe códigos de conduta àqueles que estão acolhidos embaixo de seu bojo. A mesma estrutura “cultural” que diz que Sakineh deve ser apedrejada por cometer adultério – a opressão da mulher é culturalmente respaldada. Não é o mérito da questão defender ou condenar o adultério, ou a poligamia, ou quaisquer outras práticas, apenas lembrar que certas práticas são tomadas pelo homens com consentimento total ou parcial da sociedade islâmica, ao passo que as mesmas práticas são totalmente interditadas às mulheres.

Em contrapartida, é hipócrita apoiar uma democracia injusta só porque é – tecnicamente- uma democracia. Uma democracia que favorece uma classe em detrimento de outra, que dá prioridade aos interesses da elite e atende às demandas de apenas alguns seguimentos da população, relegando outros à ignorância e ao desamparo é tão escusa e deplorável quanto qualquer ditadura. O conceito estadounidense de democracia, por exemplo, não só é deturpado como é maleável. Durante todo o século passado o poderio armamentício e político dos EUA derrubou e ergueu governos a seu bel-prazer, transformando-os em devedores e convertendo a massa da população em moeda de troca. Não nos esqueçamos também da grande imprensa (incluída obviamente a brasileira) que, sempre aliada aos interesses dos grandes países capitalistas e neoliberais (incluindo-se aí, a França) condena veementemente os opositores de tais regimes e relativiza as faltas e crimes cometidos por eles, engendrando em seus textos mensagens para condicionar o leitor leigo a pensar que certos valores como competitividade, ausência de solidadariedade e egoísmo, imiscuídos sublinearmente em seus discursos, são valores aceitáveis e, associados a “força” e “arrojo” necessários para “vencer”, transformam todos aqueles que ficam à margem desta ideologia numa massa de incompetentes e “preguiçosos”.

É interessante para estes meios de comunicação transformar qualquer governo ou nação que esteja fora do espectro da cultura ocidental ou das diretrizes econômicas dos EUA em inimigo. No entanto, todos sabemos perfeitamente que, em maior ou menor grau (ou até no mesmo grau) no mundo ocidental, em especial na América Latina, certas desigualdades são reforçadas e perpretadas de geração para geração – especialmente o machismo. O mesmo machismo e misoginia que forçam a prensa do isolamento social e político da mulher nos países islâmicos, apenas com uma carga um pouco maior de dogmas religiosos. O que nos choca em relação à condenação imposta à Sakineh se, por exemplo, no interior do Brasil, ainda é recorrente que um marido “lave a honra com sangue” ao ser traído pela mulher? O que permite que um homem trate uma mulher como sua propriedade de forma a dispensá-la de forma ordinária? Embora isto aconteça em lugares alijados do (discutível) progresso da sociedade de consumo e alijados, portanto, das leis, mesmo as judiciais, impostas por esta sociedade, ainda existem muitos homens da “cidade grande” que se consideram cultos e esclarecidos e que se vêem hesitantes diante deste tipo de situação. A diferença entre os sexos ainda não é um problema superado na maioria das sociedades, especialmente naquelas com baixo nível de letramento, como a brasileira.

A cultura ocidental pauta-se tristemente nos ideais disseminados pelos meios de comunicação, pela máquina publicitária e pela propaganda, e é tão fanática e fundamentalista quando qualquer sociedade assolada pela unilateralidade do pensamento religioso. O que a maior parte da sociedade do Ocidente - e também do Oriente - precisa dar-se conta é de que este jogo nada mais é do um jogo de duplos, e as populações destes dois lados do tabuleiro são peças movidas por algumas mãos.

domingo, 14 de novembro de 2010

Telma Scherer e a 'ameaça' da expressão artística no Rio Grande do Sul

Sexta-feira, dia 12 de novembro de 2010.

A escritora Telma Scherer faz uma intervenção artística, usando o espaço da Feira do Livro de Porto Alegre , para falar sobre sua condição de escritora e contar detalhes, alguns difíceis e nada confortáveis, de quem decide viver da produção artística. Sua apresentação consistia em elementos singelos: conversando diretamente com o público, ela falava das dificuldades de se manter financeiramente, sobre os meses de aluguel atrasado que a obrigaram a sair de seu apartamento. Usou bolhinhas de sabão e levou faturas de contas antigas para realizar sua performance. Os passantes paravam para assisti-la.

Sua intervenção vinha concentrando cada vez mais pessoas à sua volta, curiosas para ouvir a sua história. Ela foi interrompida por nada menos que dez brigadianos, que não só intentavam dispersar a multidão de forma truculenta como obrigaram a artista a se retirar contra a sua vontade, de forma agressiva e desproporcional. O argumento que a organização do evento usou, posteriormente, foi de que a artista estava “obstruindo o espaço destinado à Feira, concentrando muitas pessoas em um só lugar e provocando desordem”. Devemos salientar, ao ouvir um argumento tão vazio de justificativa, que o espaço utilizado pela própria Câmara do Livro para realizar a Feira é público e é direito de todos usarem seu espaço de forma pacífica. Era o que Telma Scherer fazia: utilizava o espaço da Praça da Alfândega de forma pacífica em nome da arte, num espaço destinado a ela.

O que a Brigada Militar fez, acionada não se sabe exatamente por quem, foi uma demonstração de força bruta e desrespeito por direitos civis primários como o direito à livre expressão. Existem vídeos no YouTube que registram e comprovam a desproporcionalidade da ação dos brigadianos não só em relação à Telma Scherer, mas em relação ao trato com as pessoas que estavam à volta, simplesmente assistindo a intervenção, e que não se conformaram com a violência desnecessária da ação policial, registrando em imagens este momento constrangedor.

O que não se consegue compreender, ao ter consciência da intenção da artista, é saber o que era tão incomodo na sua intervenção: se era a sua sinceridade ao revelar as dificuldades de um artista que luta para manter sua profissão alijado do apadrinhamento das grandes firmas editoriais, que justamente controlam, financiam e se retroalimentam do faturamento levantado pela Feira do Livro, ou a ousadia dela em simplesmente aproveitar um espaço que é público sem pedir permissão a essas mesmas grandes empresas que, obviamente, não se preocupam com a produção artística, mas apenas com o lucro, tal qual o dono de um frigorífico.

A mensagem que Telma Scherer nos deixa, talvez mesmo sem querer, é que a arte, e o “lado B” da arte, incomodam as autoridades e desafiam as grandes empresas ao expor as desigualdades de tratamento destinadas a uns e outros artistas. Alguns poucos são eleitos, outros, quem sabe a maioria, são relegados à completa falta de incentivo e investimento por parte das grandes empresas editoriais e dos órgãos de incentivo à cultura.

Aqueles que vivem da produção artística e cultural, ou mesmo os apreciadores e apoiadores, os verdadeiros apoiadores, não se resignarão diante deste episódio, mais um episódio vergonhoso da história de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul, lugares dominados pelo sentimento segregacionista e isolacionismo cultural e pela truculência daqueles que defendem e representam as forças do poder central.