Nas últimas duas semanas, o Brasil e o mundo acompanharam a ocupação ostensiva do Complexo do Alemão por parte das Forças Armadas, do BOPE e da Polícia Federal, unidas sob o propósito de desmantelar as redes de influência do tráfico de drogas das favelas do Rio de Janeiro, que, não de hoje, mas há décadas, vem dominando a cidade com a sua articulação de poder paralelo. Mas a sorte da população do Rio de Janeiro resolveu virar neste ano de 2010...
O cenário que se armou na cidade do Rio de Janeiro foi o de uma legítima guerra civil: os traficantes – e supostos traficantes – montavam barricadas para impedir a subida das forças de combate, atiraram e explodiram carros da Aeronáutica, queimaram ônibus e carros vazios. Todos esses eventos foram um prato cheio para que a grande imprensa, como O Globo, fizesse uma óbvia comparação com ações terroristas de proporções semelhantes às de grupos como Al Qaeda. A impressão que as ações destes indivíduos passaram pelo menos para mim é de que a sua ação não foi apenas uma reação desordenada, pelo contrário: estes indivíduos sabem muito bem em quem atirar. Existia uma consciência por trás destas ações de tal forma que estes “bandidos” não atacaram pessoas comuns ou fizeram-nas de refém, como o rapaz que em 2000 sequestrou o famigerado ônibus 174 e assassinou uma professora. Não. Os “traficantes” acertaram muito bem seu alvo ao atirar em carros da Polícia e das Forças Armadas, porque afinal de contas eram eles que estavam na linha de frente, e não o cidadão comum. Não explodiram escolas nem hospitais. Portanto, questiono a definição de terrorismo. Mas até aceito a concepção de guerra.
Outra coisa a se observar foi a generalização promovida pela imprensa ao chamar “traficantes” tanto aqueles que estavam armados quando aqueles que estavam fugindo de uma favela a outra, sem ter a menor certeza – ou mesmo sem a menor intenção de tê-la – se tratavam mesmo de bandidos fugitivos ou moradores da favela desesperados em salvar a própria vida diante do perigo iminente de ser baleados ou confundidos com os bandidos. Imagens de helicóptero divulgadas, ao vivo, pela TV Globo mostravam justamente a cena de rapazes correndo supostamente para outra favela, desarmados, apenas com a roupa do corpo e alguns até descalços. Para parte dos envolvidos, ainda que indiretamente, esta guerra ao tráfico soou desproporcional. A campanha promovida pelos meios de comunicação serviu para convencer a própria população das comunidades de que tudo aquilo que estava acontecendo era bom especialmente para ela. Talvez no início de tudo não parecesse. A mídia teve um poder providencial de convencimento nesse sentido. Tudo indica que quem mais matou e menos morreu em toda a ação foi a Polícia & Forças Armadas. Mas é justamente assim que as coisas parecem ficar em paz no Brasil – pelo menos para as autoridades. Gostaria que daqui seis meses a opinião da população fosse ouvida, já que ninguém se preocupou em saber se a população das comunidades apoiava a ação das autoridades (ou sequer sabia de que tudo se tratava) até a mídia entrar com a versão oficial dos fatos.
A pergunta que fica no ar, depois de todo este conflito, depois de se ter a favela providencialmente resguardada pelas mãos do Exército – fato absolutamente corriqueiro na história deste país, já que em situações de “risco”, ironicamente, são os generais que tomam conta da democracia – vamos assistir ao espetáculo do progresso rumo à Copa do Mundo de 2014 e à Olimpíada de 2016, quando os gringos vão baixar em terras brasileiras e conferir o serviço. A solução é limpar o Brasil. A “operação faxina”, de limpeza social e étnica, já começou. “O futuro já começou”.
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Julian Assange é um exemplo do que se pode chamar de “guerrilheiro da informação”. O australiano de 38 anos, radicado na Suécia, extrai o sumo das possibilidades de propagação da notícia e da informação que a Internet proporciona para furar o bloqueio da mídia corporativa. Aproveita-se que a Internet é, a princípio, uma mídia democrática e sem fronteiras para trazer à tona questões e fatos espinhosos para a grande mídia e desconfortáveis para a política de países como os EUA e aliados. Foi o que Julian Assange fez nesta semana, no seu site WikiLeaks, ao divulgar 250.000 telegramas da diplomacia americana, o que causou desconforto diplomático para os EUA e outros países envolvidos. O conteúdo destes telegramas era confidencial e expunha a opinião de diplomatas e membros do governo estadunidense sobre líderes de várias nações e a sua verdadeira posição em relação às políticas alheias (inclusive tendo o Brasil na sua pauta). Depois de serem divulgados primeiramente pelo WikiLeaks é que estes documentos foram repassados para cinco grandes publicações de países diferentes, como o New York Times, The Guardian, Der Spiegel, Le Monde e El País. A mídia corporativa, os grandes órgãos e as suas odiosas manifestações de apoio às políticas norte-americanas, sendo eles de países aliados, já não tem mais o monopólio da informação e não mais impedem que a população tenha a acesso a informações relevantes por intermédio de outras mídias.
O contra-ataque, previsivelmente, veio muito rápido. Os documentos foram divulgados no domingo. Na segunda-feira, o site WikiLeaks estava com acesso bloqueado nos EUA e na Europa. No meio da semana, Julian Assange passou a ser acusado de “abuso sexual” pela polícia sueca e perseguido pela Interpol. O seu advogado, Mark Stephens, afirma que se trata de perseguição política. Nós não temos a menor dúvida quanto a isso. Julian Assange se atreveu a afrontar o Império estadunidense ao divulgar a verdade sobre a sua política mesquinha e prepotente, e agora está sofrendo as conseqüências deste enfrentamento. Toda a sequencia de fatos, até agora, vem se seguindo de forma absolutamente óbvia: o guerrilheiro se insurge, dá o primeiro golpe, e depois toda a sequencia de golpes do contra-ataque se dá de forma absolutamente desproporcional e arbitrária. Nada pode contrariar a versão oficial dos fatos, nada pode confrontar a política dos EUA e nem a dos seus aliados sob o risco de ser impiedosamente riscado do mapa. Hoje (05/12) a imprensa divulgou que o governou australiano, caso consiga capturar Assange, vai entregá-lo à justiça dos EUA. Caso isso aconteça, não se pode mais ter certeza do que acontecerá a ele. Porém, o WikiLeaks e outros órgãos que promovem uma postura de resistência não encerrarão suas atividades e o governo dos EUA ainda terá muito com o que se preocupar. A Internet é apenas uma das frentes das “invasões bárbaras” do nosso tempo.