O caso da iraniana Sakineh Ashtiani é um caso de dupla via ideológica. Na verdade, mais um. Ela é apenas mais um exemplo explícito e mundialmente conhecido da brutal arbitrariedade do governo iraniano, que desde 1979 está às amarras do fundamentalismo religioso.
Tempos atrás, houve uma discussão calorosa no mundo todo motivada pela medida, tomada pelo governo da França, que proíbe que as mulheres muçulmanas usem o xador (lenço que cobre a cabeça e envolve o rosto) ou a burca (roupa que esconde quase todo o corpo) em locais públicos. A medida foi considerada polêmica: preconceituosa e excludente por uns, afirmativa dos direitos da mulher por outros. O governo da França, berço do Iluminismo e do mote de “liberdade, igualdade e fraternidade”, interditou, afinal de contas um símbolo de identificação cultural e religiosa da mulher muçulmana ou o símbolo da sua opressão? Ou as duas coisas?
Confesso que meu objetivo é abrir uma discussão para que, aos poucos, se possa solucionar um paradoxo do qual eu mesma, às vezes, não consigo desviar.
A defesa da “cultura” não deveria jamais deve se antepor ao direito à vida. O argumento de defesa da cultura, embasado na prática de rituais arbitrariamente estabelecidos, é o tipo de argumento que dá respaldo às touradas, à caça às baleias, ao assassinato de mulheres, crianças e grupos minoritários. A “cultura” que se defende diz respeito apenas à cultura dominante, e dominadora, que impõe códigos de conduta àqueles que estão acolhidos embaixo de seu bojo. A mesma estrutura “cultural” que diz que Sakineh deve ser apedrejada por cometer adultério – a opressão da mulher é culturalmente respaldada. Não é o mérito da questão defender ou condenar o adultério, ou a poligamia, ou quaisquer outras práticas, apenas lembrar que certas práticas são tomadas pelo homens com consentimento total ou parcial da sociedade islâmica, ao passo que as mesmas práticas são totalmente interditadas às mulheres.
Em contrapartida, é hipócrita apoiar uma democracia injusta só porque é – tecnicamente- uma democracia. Uma democracia que favorece uma classe em detrimento de outra, que dá prioridade aos interesses da elite e atende às demandas de apenas alguns seguimentos da população, relegando outros à ignorância e ao desamparo é tão escusa e deplorável quanto qualquer ditadura. O conceito estadounidense de democracia, por exemplo, não só é deturpado como é maleável. Durante todo o século passado o poderio armamentício e político dos EUA derrubou e ergueu governos a seu bel-prazer, transformando-os em devedores e convertendo a massa da população em moeda de troca. Não nos esqueçamos também da grande imprensa (incluída obviamente a brasileira) que, sempre aliada aos interesses dos grandes países capitalistas e neoliberais (incluindo-se aí, a França) condena veementemente os opositores de tais regimes e relativiza as faltas e crimes cometidos por eles, engendrando em seus textos mensagens para condicionar o leitor leigo a pensar que certos valores como competitividade, ausência de solidadariedade e egoísmo, imiscuídos sublinearmente em seus discursos, são valores aceitáveis e, associados a “força” e “arrojo” necessários para “vencer”, transformam todos aqueles que ficam à margem desta ideologia numa massa de incompetentes e “preguiçosos”.
É interessante para estes meios de comunicação transformar qualquer governo ou nação que esteja fora do espectro da cultura ocidental ou das diretrizes econômicas dos EUA em inimigo. No entanto, todos sabemos perfeitamente que, em maior ou menor grau (ou até no mesmo grau) no mundo ocidental, em especial na América Latina, certas desigualdades são reforçadas e perpretadas de geração para geração – especialmente o machismo. O mesmo machismo e misoginia que forçam a prensa do isolamento social e político da mulher nos países islâmicos, apenas com uma carga um pouco maior de dogmas religiosos. O que nos choca em relação à condenação imposta à Sakineh se, por exemplo, no interior do Brasil, ainda é recorrente que um marido “lave a honra com sangue” ao ser traído pela mulher? O que permite que um homem trate uma mulher como sua propriedade de forma a dispensá-la de forma ordinária? Embora isto aconteça em lugares alijados do (discutível) progresso da sociedade de consumo e alijados, portanto, das leis, mesmo as judiciais, impostas por esta sociedade, ainda existem muitos homens da “cidade grande” que se consideram cultos e esclarecidos e que se vêem hesitantes diante deste tipo de situação. A diferença entre os sexos ainda não é um problema superado na maioria das sociedades, especialmente naquelas com baixo nível de letramento, como a brasileira.
A cultura ocidental pauta-se tristemente nos ideais disseminados pelos meios de comunicação, pela máquina publicitária e pela propaganda, e é tão fanática e fundamentalista quando qualquer sociedade assolada pela unilateralidade do pensamento religioso. O que a maior parte da sociedade do Ocidente - e também do Oriente - precisa dar-se conta é de que este jogo nada mais é do um jogo de duplos, e as populações destes dois lados do tabuleiro são peças movidas por algumas mãos.
Ótimo texto. O que ninguém parece reparar é que o libertário Estados Unidos da América só se importa com direitos humanos quando estes são violados em países do 'eixo do mal'. Sangueira pelo mundo é o que não falta.
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